liberdade é um estado provisório que a lucidez dissolve
acervo disperso. paradeiro desconhecido.
tinta. argila. corante xadrez. anti-ruído. o que funcionasse.
Lapa, 2009. comuna do semente. entrada livre.
quatorze telas. placas de trânsito. brim cru.
se você sentisse — era seu. quando passasse — libere.
os números sumiram. as fotos sumiram. as telas sumiram.
há um purismo que não vai embora mesmo quando tudo vai
rascunho. êxtase. retângulo. raiva. pingo.
até hoje penso onde aquelas crias estão.
Procurar liberdade
na arte para
perdê-la
com valores, posses e ego.
Preferi a utopia temporária.
Pintei umas
quatorze telas
de tamanhos variados.
De 1,80 por 1,60
até algumas trabalhadas em
placas de trânsito
que eu arrancava à noite na cidade.
Acrílica com argila.
Com corante xadrez.
Anti-ruído para carros.
O que desse vontade e funcionasse para mim.
Me esquecer nos rascunhos.
Em abstrações.
No cheiro da tinta pingando no brim cru
ou na tinta explodindo com raiva
em algum ponto daquele retângulo.
Um tipo de êxtase.
Cada arte tem um ou dois.
Chegando na Lapa encontrei um ponto.
Conversei com os funcionários do Comuna do Semente.
Simpáticos e com essa ideia de fazer um valor menor na refeição
se você a preparasse com as mãos. Algo assim.
Disseram que por as telas por ali seria tranquilo.
E foi.
Na proposta do
Arte Independente
eu deixava que qualquer pessoa
que gostasse realmente de um quadro,
poderia levá-lo.
De graça.
E quando esse quadro não tivesse mais impacto sobre essa pessoa,
ela deveria liberá-lo
para quem sentisse o mesmo
que ela no início.
Muita gente viu como inocência.
Não importava.
Tem essa grande parcela de purismo
que não vai embora.
Gosto dela. Mesmo.
Todas as telas foram passadas.
Perdi todos os números de contato.
Todas as fotos.
Tudo
em menos de uma semana.
Até hoje penso
onde aquelas crias estão.